segunda-feira, 29 de maio de 2017

O SARGENTO PIMENTA E O ESPÍRITO DO TEMPO QUE SE FOI*

It was twenty years ago today, Sargeant Pepper taught the band to play.
Há vinte anos, o Sargento Pimenta ensinou a banda a tocar.
Não, vinte não! Lá se vão cinquenta!
Cinquenta anos que “A Banda do Clube dos Corações Solitários do Sargento Pimenta”, oitavo – e mais famoso – álbum de estúdio dos Beatles veio ao mundo. Considerado por muitos o melhor disco do quarteto de Liverpool e da história do rock e o primeiro álbum do gênero conceitual – opiniões com as quais particularmente não concordo –, Sgt. Pepper já foi submetido a inúmeras análises das mais variadas, algumas sérias, muitas superficiais, outras pretenciosas.
A revista “Time”, à época de seu lançamento, qualificou-o, com cores exageradas e um tanto risivelmente, de “momento decisivo na história da civilização ocidental”. Teóricos da conspiração reviraram suas letras, inverterem os acordes, examinaram e reexaminaram com lupa a emblemática e multiparodiada capa, em busca de referências abertas ou criptografadas ao uso de drogas, à morte de Paul McCartney, ao advento da Era de Aquarius, à vinda do anticristo e – pasmem! – à revolução comunista mundial.  Se “Che” Guevara soubesse disto, teria se aliado aos Beatles, ao invés de se embrenhar nos altiplanos bolivianos, onde seria morto naquele mesmo ano (nem só de flores viveu 1967, meus amigos).
Ainda hoje, além de emprestar seu nome para um bloco do carnaval carioca, o Sargento Pimenta é acusado pelos neodireitistas de plantão de ser mais um instrumento a serviço do “marxismo cultural”, em sua estratégia gramsciana para corromper a juventude, destruir a família e varrer do mapa os valores da civilização cristã ocidental. Pobre Ringo...
Enfim, poucos produtos da cultura de massa receberam tantos holofotes quanto Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band.
Como se justifica tamanha veneração em torno de um mero disco de rock’n’roll?
A hipótese que sustento e que tentarei esboçar a seguir é a de que, para além da mitificação, a importância de Sgt. Pepper deveu-se menos à qualidade das suas canções – ainda que, nos limites do formato pop rock, estivessem bem acima da média geral – ou ao experimentalismo dos seus arranjos – neste aspecto, certamente há outros trabalhos mais ousados de outros artistas e dos próprios Beatles que o antecederam ou precederam.
O impacto causado por Sg. Pepper foi mais amplamente cultural do que estritamente musical: a sua capacidade de sintetizar –  e transformar em acontecimento midiático –  o zeitgeist dos anos 60, notadamente do intervalo 1965-69. Deste ponto em diante, tomo de empréstimo o conceito difundido por Hegel e simploriamente entendido como o “espírito do tempo”, a consciência histórica de uma determinada época que se explicita nas consciências individuais, dá substância à cultura e conteúdo às realizações da arte.
O zeitgeist sessentista tem forma e nome: contracultura.
Os Beatles não a inventaram, embora desde seu aparecimento comercial, em 1962, tenham ajudado a quebrar barreiras estéticas e comportamentais que lhe abriram caminho. Mexeram com a subjetividade da juventude e, ao assim fazerem, inconscientemente colaboraram para ativar   as condições objetivas – e, aqui, procuramos superar os limites meramente idealistas do conceito hegeliano – que já se encontravam dadas nos países centrais do capitalismo desde a década anterior e sem as quais a contracultura dificilmente floresceria, tais como a disseminação das políticas de bem-estar social, o aumento considerável da população adolescente, sobretudo nos EUA,  a ampliação do acesso à universidade e a produção de artigos culturais destinados especificamente ao público jovem.  
Desde fins de 1965, a contracultura já se manifestava subterraneamente em parcela da juventude norte-americana e europeia que seguia as pegadas dos beatniks, contactava a literatura mediada e decodificada de Sartre e Marcuse, decifrava as poesias disfarçadas em canções de Bob Dylan e buscava ampliar os limites de sua consciência sob efeito de drogas psicotrópicas, principalmente o ácido lisérgico (LSD).
Bandas californianas  de nomes esquisitos e até então desconhecidas – Jefferson Airplane, Big Brother & The Holding Company, Quicksilver Messenger Service, Chocolate Watch Band, The Grateful Dead, Country Joe & The Fish, etc – já “viajavam” naquilo que veio a ser chamado de “acid rock”, ou rock psicodélico, antes que medalhões dos dois lados do Atlântico – os Byrds e os Yardbirds, por exemplo – aderissem ao novo som. Os Beatles começaram a namorar a contracultura em “Rubber Soul”, lançado em dezembro de 1965. O noivado veio com “Revolver” (agosto de 66). Sgt. Pepper celebrou o casamento.
Portanto, não havia nada de muito novo no front, quando o Sargento Pimenta deu as caras. O seu mérito foi o de tirar a contracultura do submundo e a trazer para o estrelato e, ao fazê-lo, também expôs suas contradições. Foi o de torna-la parte daquilo que criticava: a “sociedade do espetáculo”. Não coincidentemente o livro do situacionista Guy Debord, outra grande influência para os contraculturalistas mais à esquerda, foi publicado no mesmo ano em que Sgt. Pepper foi lançado.
Não se vanglorie, Paul! Este mérito – o de jogar o spotlight sobre a contraculturatambém não foi exclusivo da sua banda. Basta que se examine outros produtos artísticos de 1967, para que se perceba que a contracultura estava no mainstream, no meio. Afinal, “o meio é a mensagem”, propagandeou Marshall McLuhan, em outro livro bombástico publicado naquele ano.
Estava nos palcos da Broadway, que premiou a tragicomédia absurdista de Tom Stoppard, “Rosencrantz and Guildenstern are dead”, e abriu suas cortinas para a ópera-rock hippie “Hair”, enquanto, em Paris, o teatro avant-garde do grupo Le Soleil estreava sua montagem mais assistida, “La Cousine”, de Arnold Wester. 
Estava em Hollywood: no enredo de  “The Graduate” (“A primeira noite de um homem”), de Mike Nichols, com um estreante Dustin Hoffman no papel principal, e na narrativa acelerada de “Bonnie and Clyde” (“Uma rajada de balas”), de Arthur Penn. Pontuou a nouvelle vague francesa em “Mouchette” (“A virgem possuída), de Robert Bresson, e em “A chinesa”, de Jean-Luc Godard. E foi laureada em Cannes, quando o underground londrino filmado em “Blow up” (“Depois daquele beijo”), de Michelangelo Antonioni, levou o grande prêmio.
Estava nas livrarias: no best seller “O bebê de Rosemary”, de Ira Levin, na estreia de Milan Kundera, “A brincadeira”, e, sobretudo, no realismo fantástico de “Cem anos de solidão”, de Gabriel Garcia Márquez. Estava na moda de Carnaby Street e na pop art de Andy Warhol e do grupo The Fool.
Obviamente, estava na música popular de língua inglesa. Em vários trabalhos anteriores e posteriores a Sgt. Pepper. Nos primeiros e já brilhantes álbuns de várias bandas:  The Jimi Hendrix Experience, “Are you experienced?” e “Axis: bold as love”; The Doors, o homônimo de estreia e “Strange Days; The Pink Floyd, “The piper at the gates of dawn”;  The Turtles, “Happy Together”; Traffic, “Mr. Fantasy”; Big Brother & The Holding Company (com a esfuziante Janis Joplin no vocal); Procul Harum; The Velvet Underground (o famoso “disco da banana” – capa de Warhol).
Em álbuns de bandas já associadas à contracultura como “Surreallistic Pillow”, de Jefferson Airplane, “Absolutely Free”, de Frank Zappa & The Mothers of Invention, e “Younger than yesterday”, dos Byrds. Até mesmo bandas com raízes no blues, no rhythm & blues e no folk rock gravaram e comercializaram discos de rock psicodélico, a exemplo  de “Their Satanic Majesties Request” dos Rolling Stones, “Disraeli Gears” do Cream, “Sell out” do Who, “Again” do Buffalo Springfield, “Forever Changes” do Love. Gotas de psicodelismo também resvalaram na música soul norte-americana, tal e qual se pode ouvir em “A whole new thing”, de Sly & Family Stone, “Reach out”, dos Four Tops, e nos arrebatadores singles “Respect”, de Aretha Franklin, e “I wanna testify”, dos Parliaments.
Como se vê, com ou sem Sgt. Pepper, 1967 bem pode ser considerado o melhor ano da história do rock.
A contracultura também estava na mira das autoridades conservadoras. Na Califórnia, o governador republicano Ronald Reagan, empossado em 1967, endureceu o tratamento dado aos hippies que faziam de San Francisco, capital do estado, o seu paraíso comunitário. Não era de se surpreender, uma vez que, para além das já atacadas práticas libertárias na relação com o corpo (sexo e drogas), cada vez mais a contracultura se associava a – ou era infiltrada por – ativistas à esquerda do establishment norte-americano, como os militantes da luta pelos direitos civis e do movimento pacifista. Isto em uma conjuntura em que estes temas, ou seja, a segregação racial e a Guerra do Vietnã, eram parte do “calcanhar de Aquiles” da política norte-americana e tomadas de posição públicas a respeito destas causas eram motivo de censura e punições oficiais das quais nem mesmo celebridades escapavam. Haja visto o ocorrido ao campeão dos pesos pesados, Cassius Clay, recém convertido à Nação do Islã e rebatizado Muhammad Ali, que, em 1967, teve seu cinturão cassado por se recusar ao alistamento militar. “Por que me pedem para vestir um uniforme, viajar dez mil milhas e lançar bombas e balas no povo vietnamita, enquanto os negros de Louisville são tratados como cachorros e lhes são negados os mais elementares direitos humanos?”, disse  o campeão.
O vento da contracultura também soprou no Brasil em 1967, apesar dos tempos sombrios impostos por uma ditadura cada vez mais arrefecida e censora. A rebeldia estético-comportamental  apareceu nas montagens antropofágicas de “O Rei da Vela”, de Zé Celso Martinez, e “A Navalha da Carne”, de Plínio Marcos, e nos contos de “Lúcia McCartney”, de Rubem Fonseca. A subversão política nas lentes de Glauber Rocha, em “Terra em Transe”, e nas páginas de “Quarup”, de Antônio Callado. E – por que não? –  a transgressão moral veio às telas em “Esta noite encarnarei no teu cadáver”, de José Mojica Marins.
Não na MPB. Em um país de poucos leitores e espectadores de teatro e cinema, a música popular, sobretudo a veiculada nas emissoras de rádio e televisão, era o principal e, portanto, o mais disputado meio de circularidade cultural. Por este motivo, em tempos de radicalização política, a MPB era alvo de uma disputa dicotômica em que intelectuais e artistas nacionalistas à esquerda, defensores da música brasileira “autêntica”, de “raiz”, e politicamente engajada, acusavam de alienação e submissão aos ditames do imperialismo cultural os músicos da popularíssima “Jovem Guarda”, que reproduziam no Brasil o rock anglo-saxão pejorativamente chamado de “iê-iê-iê”.
Roberto Carlos, incontestavelmente o artista mais criativo da Jovem Guarda, dominou as paradas brasileiras em 1967, com um álbum (“Em Ritmo de Aventura”) repleto de hits: “Eu sou terrível”, “Como é grande o meu amor por você”, “Por isso corro demais”, “De que vale tudo isto”, “Quando”, etc. Mas os amantes da MPB nacionalista nada tiveram a reclamar daquele ano. Foram presenteados com albuns do naipe de “Edu e Bethania”, de Edu Lobo e Maria Bethania, “Vinícius”, de Vinícius de Moraes, “Wave”, de Tom Jobim, “Vento de Maio”, de Nara Leão, “Travessia”, de Milton Nascimento, e os dos ainda pré-tropicalistas Gilberto Gil (“Louvação”) e Caetano Veloso/Gal Costa (“Domingo”). Chico Buarque de Hollanda confirmou sua condição de “intelectual orgânico” da esquerda mpbista ao lançar seu segundo álbum, contendo pérolas como “Noite dos Mascarados”, “Com Açúcar, Com Afeto”, “Quem te viu, Quem te vê”, “Morena dos olhos d’água”, etc. E, na contramão do tal imperialismo cultural, ninguém menos que Francis Sinatra se rendeu aos encantos da bossa nova interpretando clássicos como “Dindi”, “Corcovado” e, obviamente, “The Girl from Ipanema”, em companhia de Tom Jobim (no álbum “Francis Albert Sinatra & Antônio Carlos Jobim”).
Jovenguardistas de um lado. Mpbistas de outro. Entre eles um muro mais fortificado que o de Berlim. Mas a contracultura detestava muros. Ao contrário, pretendia destruí-los. E por mais que, a partir de 1968, correntes mais radicais passassem a hegemonizar os movimentos sociais, sobretudo o estudantil, em 1967 a face hippie, pacifista, florida, da contracultura era a mais visível: mudar o mundo não pelas armas, mas pelo amor. Um amor universal, que integra mais do que separa; que buscava a harmonia, mais do que o conflito entre os opostos. Uma dialética mais Yin-Yang do que Marx-Engels. Este era o zeitgeist de 1967. E ninguém o encarnou melhor do que os Beatles.
 Como já dito, Sgt. Pepper não inventou aquele zeitgeist, mas foi o seu ponto axial, o seu evento culminante e, ao mesmo tempo, desdobrador. O “Tao” para onde chegaram e de onde saíram muitos caminhos. E foi pensado para ser exatamente isto. Se existe algum disco dos Beatles que resultou de um projeto maquiavelicamente calculado para causar o impacto que causou, foi Pepper. Antes e depois de seu lançamento. Como um happening típico daqueles dias, que se estendia por vários momentos, o “efeito Sgt. Pepper” começou a ser sentido bem antes de primeiro de junho, dia em que o disco chegou às lojas do Reino Unido. A expectativa por “aquilo que viria depois de ‘Revolver’” já apareceu quando os Beatles anunciaram a suspensão das turnês e a dedicação exclusiva aos trabalhos de estúdio, um ano antes. Àquela altura, as cabeças dos três compositores  já estavam recheadas dos ingredientes que amalgamaram o som psicodélico peculiar da banda: na de McCartney, o underground artístico londrino, a música concretista de Stockhausen e Berio, o pop sofisticado dos Beach Boys em “Pet Sounds” e o rock dissonante de “Freak out”, de Frank Zappa; na de Harrison, a música e a filosofia indianas; na de Lennon, ... o ácido lisérgico, combustível que o estimulou a escrever, sob forma de canções, os versos mais instigantes de toda a poesia psicodélica sessentista.
Em fevereiro de 1967, quem apostava no fim dos Beatles, depois de seis meses de ostracismo, se surpreendeu com as sonoridades extravagantes presentes no single “Penny Lane”/”Strawberry Fields Forever”, com suas letras que transformavam reminiscências infantis em mergulhos psicanalíticos.
Músicos indianos e eruditos entrando e saindo de Abbey Road. Cartas enviadas pela gravadora EMI a várias personalidades solicitando autorização para o uso de suas imagens na capa do “próximo disco”. Luzes do estúdio acesas madrugada a dentro. Raras aparições públicas dos Beatles exibindo um novo visual, com franjas mais longas e bigodes. Tudo fazia aumentar a curiosidade dos fãs e da imprensa, em meio ao silêncio – ou a declarações evasivas – dos protagonistas, exceto quando o sempre autoconfiante McCartney apresentou o acetato de “She’s Leaving Home” a Brian Wilson, líder dos Beach Boys, levando-o a desistir, atordoado, dos seus planos de superar os concorrentes ingleses com seu próximo trabalho, o natimorto “Smile”.
Olhando em retrospectiva todo aquele mistério pareceu estratégico. Parte do happening.
E quando o disco finalmente veio à luz, os ansiosos ouvintes, antes de se deliciarem com as faixas, gastavam horas tentando decifrar os enigmas contidos na capa, uma colagem que simula um funeral, no qual os “velhos” Beatles de terninho testemunham melancólicos a sua própria morte, enquanto seus alteregos, vestidos com os coloridos uniformes da Banda de Sgt. Pepper, encaram o futuro, cercados por uma plateia composta de ícones da alta cultura e da cultura de massa. A dialética do Yin-Yang. A harmonia dos contrários. Ou – se assim preferirem – a geleia geral proto-pós-moderna. No encarte, bigodes e distintivos recortáveis para que todos se sentissem parte do show.
Dos sulcos do vinil, após os metais e as guitarras ácidas da faixa de abertura que dá nome ao disco, emerge uma sequência de canções com uma ilusória unidade temática testada no single de fevereiro: as lembranças da vida cotidiana da Inglaterra nortista. Canções glamourosamente produzidas por uma disciplinada e inventiva equipe de engenheiros e técnicos de som chefiada por George Martin, capaz de superar as limitações de um estúdio com quatro míseros canais e tornar realizável os arranjos mais anticonvencionais e exóticos sugeridos pela banda.
Não iremos dissecá-las todas. Mas é impossível não destacar o sentimentalismo pequeno-burguês destilado pela narrativa chorosa dos pais desolados por perderem a filha fujona na barroca “She’s Leaving Home”. O choque de gerações ali apresentado encontra seu contraponto no vaudeville “When I’m Sixty Four”, a profecia de uma velhice feliz ao lado dos netos. De novo, o Yin e o Yang. A marcha circense “With a little help from my friends”, reinventada e imortalizada por Joe Cocker em Woodstock, é uma ode ao espírito fraternal e comunitário dos hippies. A letárgica “Lucy in the sky with Diamonds” convida o ouvinte a uma experiência sinestésica povoada pelas visões surreais da menina que John Lennon dizia ser “apenas uma coleguinha de escola do seu filho”. Em “Getting Better”, o eu-iírico confessa o seu machismo, mas diz que está mudando e que as coisas estão melhorando.
O sermão anti-materialista da raga “Within you, without you”, adverte aqueles que “ganham o mundo e perdem a alma” e nos avisa que “com nosso amor, podemos mudar o mundo”. E a épica “A day in the life” relata episódios corriqueiros de um dia qualquer imanados pelo dístico psicodélico “adoraria sintonizar você” a um estado de sonho induzido pelo cigarro (advinha qual?) e conduzido pela bateria hipnótica de Ringo Starr e por uma progressão sinfônica que vai do nada ao além e retorna abruptamente ao nada.
Havia, por certo, mais coisas. Algumas, infelizmente, audíveis só aos cães.
Ouvir Sgt. Pepper em 1967 – assim disseram os que tiveram esta sorte – era mais que simples entretenimento. Era uma praxis contracultural, uma catarse, que deveria ser usufruída coletivamente de preferência e com boas doses de ácido.
O “efeito Sgt. Pepper” se prolongou em vários momentos ao longo daquele ano. Por exemplo, quando um endiabrado Jimi Hendrix distorceu a canção título do álbum ao vivo, apenas dois dias após o seu lançamento, deixando embasbacada a audiência, na qual estavam os próprios Beatles. Ou quando a BBC e outras rádios britânicas e norte-americanas proibiram a execução de várias músicas por alusão a drogas. Ou quando Timothy Leary, o apóstolo do LSD,  declarou serem os Beatles “mutantes, protótipos de agentes evolucionários enviados por Deus, dotados de um poder misterioso para criar uma nova espécie humana, uma jovem raça de homens livres e risonhos (...), são os mais sábios, santos e eficazes avatares que a humanidade jamais produziu”. Ou quando Joseph Crow, membro da ultradireitista John Birch Society, os chamou de “líderes carismáticos e demagogos criando promiscuidade, uma epidemia de drogas, consciência de classe juvenil e uma atmosfera de revolução social”.
Ou quando os hippies de São Francisco, à revelia do governador Reagan, proclamaram ser aquele o “verão do Amor” e receberam a visita de George Harrison que desfilou a realeza psicodélica britânica na esquina de Haigh-Ashbury. Ou quando Paul McCartney compensou a ausência dos Beatles no primeiro festival de rock psicodélico, o de Monterey, recomendando Jimi Hendrix, o incendiador de guitarras, para o cast. Ou quando John e Paul juntaram-se aos backing vocals de “We Love You”, dos Rolling Stones, solidarizando-se aos “rivais” Mick Jagger e Keith Richards, recentemente presos por porte de drogas.
Ou ainda quando, depois de submetidos por Tom Zé a uma audição de Sgt. Pepper, Caetano Veloso e Gilberto Gil decidiram subir ao palco do Festival da Canção de 1967 acompanhados de bandas de rock para apresentarem respectivamente “Alegria, alegria” e “Domingo no Parque”, dando o pontapé inicial na Tropicália e, finalmente, introduzindo a contracultura na MPB.
Para os Beatles, Sgt. Pepper significou mais do que um disco de sucesso, como tantos outros na sua carreira. Entre 1962 e 1965, de “Love me do” a “Help!”, eles alcançaram êxito comercial e fama, e  realizaram a ambição adolescente de serem “maiores que Elvis”. Com “Rubber Soul” e “Revolver”, veio o reconhecimento artístico, a chancela da crítica musical especializada.
Sgt. Pepper  os transformou em líderes geracionais de uma revolução cultural em curso.  
Fato confirmado, vinte e quatro dias após o lançamento do álbum, quando foram convidados pela BBC a representarem o Reino Unido na primeira transmissão mundial de televisão via satélite, para um público estimado de 400 milhões de espectadores. Foram os únicos famosos, em meio a uma gama de artistas populares anônimos espalhados pelos quatro cantos do mundo. Outra quebra de barreiras. E outro ato simbólico daquele zeitgeist: a confraternização universal por meio da arte.
Para a ocasião, promoveram um novo happening. Convidaram os amigos – entre eles, Eric Clapton, Mick Jagger, Keith Richards, Keith Moon e Graham Nash –, coloriram o estúdio com flores e balões e executaram uma canção, “All you need is love”, que simplifica a mensagem permeada em Sgt. Pepper. Mensagem esta que, embalada em um arranjo puxado evocativamente pela “Marselhesa”, pretendia-se universal: a revolução do amor.

Por fim, cabe a pergunta: há lugar para o Sargento Pimenta nos dias de hoje?
Provavelmente, a resposta é não!
Cinquenta anos depois, Sgt. Pepper soa datado à maioria dos ouvintes, embora, paradoxalmente, a música jovem mais inovadora feita atualmente seja herdeira direta das possibilidades por ele abertas. Seus efeitos sonoros, construídos a duras penas, muitas vezes de forma improvisada, pela equipe dos estúdios Abbey Road, podem ser facilmente reproduzidos no quarto de qualquer adolescente minimamente iniciado em programas de gravação digital. Jovens músicos e compositores, mesmo desprovidos de virtuose, mas, como os Beatles, dotados de ousadia e liberdade criadora sem limites e preconceitos, são perfeitamente capazes de percorrer, aprofundar e multiplicar as trilhas deixadas por Sgt. Pepper.
Mas não se trata de considerações técnicas ou estéticas, senão ideológicas. Sgt. Pepper não foi fruto apenas do talento dos Beatles ou da engenhosidade de George Martin e de seus assessores. Sua existência – e esta foi a hipótese aqui defendida – deveu-se muito à consciência coletiva reinante em seu tempo. E é aí, justamente, onde reside o seu anacronismo. O Sargento Pimenta está velho não porque sua sonoridade está ultrapassada, mas porque sua fala destoa do zeitgeist de hoje. Vivemos um tempo de hegemonia de ideias ultraconservadoras, retrógradas até. Mais próximas das de Ronald Reagan ou da John Birch Society do que das dos hippies de São Francisco ou da Swinging London.
Noutras décadas, o velho e bom rock’n’roll, seguindo os passos paternos do blues, foi a linguagem de uma juventude inconformista, porém, desde quando se apagaram as últimas fagulhas da explosão punk, converteu-se em uma música reacionária.
A própria juventude, com a qual Sgt. Pepper dialogava, hoje não pensa em mudar, mas ganhar o mundo, ainda que perca a  alma. A garota não mais quer fugir de casa em busca de liberdade, mas concentra-se em “empreender” seus negócios o quanto antes. Amigos não são companheiros de quem se pode desfrutar de uma pequena ajuda, mas concorrentes em potencial na arena-mercado. Os diamantes de Lucy não estão no céu, mas nos cofres bancários. Ninguém mais adoraria sintonizar o outro, mas derrotá-lo.
O sargento idolatrado com quem se posa na “selfie” não é o que ensina a banda a tocar, mas o que dispersa o “bando” de subversivos e garante a “ordem”.
Porque morreu o espírito do tempo que tão bem soube captar, Sgt. Pepper é uma relíquia fossilizada. Uma obra de arte popular que ainda desperta admiração, mas não gera inspiração. Sua “velha roupa colorida” desbotou e não nos serve mais.
Mas, tal como Marx demonstrou ao inverter a dialética hegeliana, zeitgeists, consciências sociais, não morrem. São transformadas por mãos, pés, mentes e corações solidários...

... ainda que solitários.



* Escrito por Lisergy Wyrebuss para o Scotland Music Express.

Traduzido e adaptado por Alexandre Fonseca, que também adicionou as partes referentes à cultura e à música popular brasileiras.